A escassez de laminados para PCB deixou de ser um problema pontual e passou a representar um dos maiores desafios da indústria eletrônica. Entenda como essa crise surgiu, por que os custos e os lead times dispararam e quais estratégias podem ajudar a proteger sua cadeia de suprimentos nos próximos anos.

Responsável pelo artigo: Cilene Paleari Faria
A demanda por inteligência artificial, a pressão sobre matérias-primas, os gargalos de capacidade e os desafios logísticos estão transformando a cadeia global de PCBs.
O que é o laminado para PCB e por que ele é tão importante?
O laminado, ou Copper Clad Laminate (CCL), é um dos principais materiais utilizados na fabricação de uma placa de circuito impresso.
Em uma PCB convencional, o material é composto essencialmente por uma estrutura de fibra de vidro e resina, revestida com folha de cobre.
Esse material não é apenas uma base mecânica da placa. Sua especificação influencia diretamente características como desempenho elétrico, impedância, estabilidade dimensional, resistência térmica, confiabilidade, características mecânicas, desempenho em alta frequência, perdas de sinal e capacidade de fabricação da PCB.
Por isso, escolher o laminado correto é uma decisão técnica e estratégica. E, quanto mais sofisticado o produto eletrônico, maior é a importância dessa escolha.
A crise dos laminados não surgiu de um único fator
É importante entender que a atual pressão sobre os laminados não pode ser atribuída a uma única causa. Ela é resultado da combinação de diferentes movimentos que aconteceram simultaneamente.
Entre os principais fatores estão:
- crescimento acelerado da inteligência artificial;
- expansão dos data centers;
- aumento da demanda por servidores e sistemas de armazenamento;
- crescimento de aplicações de alta velocidade;
- maior utilização de PCBs HDI e multilayer;
- aumento da demanda por materiais de baixa perda;
- pressão sobre cobre e folha de cobre;
- restrições na oferta de fibra de vidro e resinas;
- aumento dos custos logísticos;
- tensões geopolíticas;
- necessidade de expansão da capacidade produtiva.
O resultado é uma cadeia em que a demanda cresce mais rapidamente do que a capacidade de resposta de alguns elos da indústria.
A inteligência artificial mudou o jogo no mercado de PCBs
O mercado global de eletrônicos alcançou aproximadamente US$ 2,81 trilhões em 2025, segundo o relatório da ICAPE, e a projeção é chegar a cerca de US$ 3,6 trilhões em 2030.
Dentro desse mercado, o segmento de servidores e data storage impulsionado por AI apresentou crescimento de aproximadamente 41,9% em 2025.
Mas existe um detalhe ainda mais importante: a inteligência artificial não está simplesmente aumentando a quantidade de PCBs produzidas. Ela está aumentando a demanda por PCBs mais complexas e de maior valor agregado.
Essas aplicações exigem cada vez mais um maior número de camadas, HDI, sequential lamination, materiais low-loss, materiais ultra-low-loss, alta densidade, alta velocidade, interconexões de alta performance e controle mais rigoroso de impedância.
O relatório da ICAPE destaca justamente essa mudança: o crescimento da indústria está sendo cada vez mais impulsionado pelo valor por placa, e não apenas pelo número de unidades produzidas.
Quais materiais para PCB estão sendo pressionados?
A pressão sobre o mercado não está concentrada em um único insumo. Alguns dos principais materiais utilizados na fabricação de laminados e PCBs também vêm enfrentando restrições de oferta e aumento de demanda.
Fibra de vidro
A fibra de vidro fornece estrutura mecânica ao laminado. A demanda por fibras e tecidos de vidro específicos também aumenta à medida que crescem as aplicações de alta velocidade e alta performance.
Resinas
A resina é fundamental para a estrutura do laminado. Aplicações convencionais utilizam principalmente sistemas baseados em resina epóxi, enquanto aplicações de maior desempenho podem exigir sistemas de resinas mais sofisticados.
Folha de cobre
A folha de cobre é responsável pela formação das camadas condutivas da PCB. O aumento da demanda por eletrônica de alta performance também aumenta a pressão sobre sua disponibilidade e preço.
O aumento de custos dos laminados já é significativo
Os números disponíveis até julho de 2026 mostram que não estamos diante de uma pequena oscilação.
Segundo o relatório da ICAPE, o preço do laminado apresentou aumento de 63,2% entre janeiro de 2025 e julho de 2026.
Além disso, o relatório apresenta aumento de aproximadamente 53% no preço do estanho em relação ao ano anterior, outro material importante para a cadeia eletrônica.
É importante fazer uma distinção: um aumento de 63,2% no preço do laminado não significa que todas as PCBs ficaram 63,2% mais caras.
O preço final de uma PCB depende de número de camadas, área, espessura, cobre, acabamento superficial, quantidade de furos, tecnologia, volume, complexidade, utilização da fábrica, mão de obra, logística, câmbio e especificação do material.
Portanto, o aumento do laminado é um dos componentes da pressão de custo, e não uma equivalência direta com o preço final da placa.
O lead time talvez seja o maior problema
Se o aumento de preço chama atenção, o comportamento dos prazos é ainda mais preocupante.
O relatório da ICAPE mostra que o lead time médio do laminado passou de 7,14 dias em junho de 2025 para 47,14 dias em junho de 2026.
Entre junho de 2025 e junho de 2026, isso representa aproximadamente 560% de aumento.
Entre Q1 e Q2 de 2026, o salto foi de 8,9 dias para 32,1 dias, ou aproximadamente 261%.
O próprio relatório alerta que os lead times poderiam continuar aumentando ou permanecer em níveis elevados durante o terceiro trimestre de 2026.
Esse dado muda completamente a lógica de planejamento.
Uma empresa pode ter capacidade de montagem, mão de obra e pedidos em carteira, mas ainda assim não conseguir iniciar a produção porque o material da PCB não está disponível.
O problema já ultrapassou o laminado
Outro ponto importante observado pela ICAPE em julho de 2026 é que a pressão sobre a cadeia eletrônica também chegou aos componentes.
A empresa alerta para dificuldades envolvendo MLCCs, resistores, capacitores de tântalo e outros componentes eletrônicos.
Em alguns casos, fabricantes passaram a restringir novos pedidos, trabalhar com allocation e exigir reconfirmação de preços antes da compra.
A validade das cotações também diminuiu significativamente, chegando em alguns casos a apenas 48 horas, enquanto determinados componentes já apresentam lead times que avançam para 2027.
Isso mostra que estamos diante de um problema maior: não é apenas uma crise de PCB; é uma crise de supply chain eletrônico.
Por que a capacidade produtiva é um ponto crítico?
Uma das dificuldades para resolver rapidamente esse problema é que capacidade produtiva não pode ser criada da noite para o dia.
Novas linhas e fábricas exigem investimento, equipamentos, construção, qualificação de processo, desenvolvimento de materiais, homologação, certificações, aprovação dos clientes e ramp-up produtivo.
Além disso, o crescimento da demanda por AI está direcionando investimentos para materiais e tecnologias de maior desempenho.
Isso significa que, mesmo quando novas capacidades forem anunciadas, pode levar anos até que elas estejam plenamente disponíveis no mercado.
2027: o mercado de PCBs deve continuar pressionado
É importante separar o que já é dado observado daquilo que é projeção.
Os dados disponíveis indicam que a pressão não deve desaparecer rapidamente.
A demanda por infraestrutura de AI, data centers, networking e eletrônica de alta performance continua sendo um importante vetor de crescimento.
Isso significa que 2027 tende a continuar exigindo planejamento antecipado, forecast, reserva de capacidade, fornecedores alternativos, qualificação de materiais, maior controle de estoque e engenharia de alternativas.
A tendência não é necessariamente de uma crise permanente.
O mais provável é uma reconfiguração gradual da cadeia, à medida que novos investimentos em capacidade sejam concluídos.
2028 pode trazer maior equilíbrio ao mercado
A expansão da capacidade produtiva será fundamental para que o mercado encontre um novo equilíbrio.
Porém, existe um intervalo entre anunciar investimentos e efetivamente colocar capacidade adicional no mercado.
Alguns projetos de expansão de CCL citados pela TrendForce têm produção relevante prevista somente para 2028.
Isso significa que os próximos anos provavelmente serão marcados por uma transição:
- 2026: forte pressão.
- 2027: adaptação e expansão.
- 2028 em diante: entrada gradual de novas capacidades.
Naturalmente, o equilíbrio dependerá também do comportamento da demanda, especialmente dos investimentos globais em AI e data centers.
E o mercado global de PCB até 2030?
Apesar dos desafios atuais, existe uma informação positiva: o mercado global de PCB continua crescendo.
O relatório da ICAPE estima um mercado global de PCB de US$ 96 bilhões em 2026 e projeção de US$ 123 bilhões em 2030, com CAGR de 7,7% entre 2025 e 2030.
Portanto, a questão não é se a indústria eletrônica continuará crescendo.
A questão é como a cadeia produtiva conseguirá acompanhar esse crescimento.
O novo desafio: não basta comprar mais barato
Em um mercado estável, comparar fornecedores principalmente por preço pode funcionar.
Em um mercado de escassez, essa estratégia pode aumentar o risco.
Uma diferença muito grande de preço deve levar a uma investigação mais profunda.
É importante entender:
- qual é a origem do laminado;
- quem é o fabricante;
- qual é a grade utilizada;
- qual é a data de fabricação;
- qual é o lote;
- como o material foi armazenado;
- quais certificações possui;
- qual é a rastreabilidade.
Uma PCB mais barata não é necessariamente uma PCB pior.
Mas uma PCB significativamente mais barata, sem uma explicação técnica e comercial consistente, merece atenção.
A homologação de fornecedores de PCB também precisa mudar
É necessário avaliar não apenas a capacidade de fabricar a placa, mas também a cadeia de materiais.
Sobre o laminado
Fabricante, origem, grade, datasheet, lote, data de fabricação, certificação e rastreabilidade.
Sobre a fabricação
Capacidade, tecnologias, certificações, experiência e quais processos são internos ou terceirizados.
Sobre o projeto
Atendimento ao stack-up, constante dielétrica, perda dielétrica, CTE e desempenho térmico.
Sobre o futuro
Fornecedor alternativo, capacidade reservada, estoque, lead time real e possibilidade de alteração de preço.
O que as empresas podem fazer agora?
1. Planejar antes
Quanto maior a previsibilidade da demanda, maior a possibilidade de reservar materiais e capacidade.
2. Compartilhar forecast
Forecast deixou de ser apenas uma ferramenta de planejamento comercial e passou a ser uma ferramenta de segurança de supply chain.
3. Antecipar compras críticas
Quando um material apresenta risco elevado, esperar a necessidade aparecer pode significar esperar também pelo problema.
4. Trabalhar alternativas técnicas
Uma BOM mais flexível pode reduzir significativamente o risco de single sourcing.
5. Avaliar estoque estratégico
Para produtos recorrentes, programas de estoque podem ajudar a estabilizar disponibilidade e custo.
6. Diversificar fornecedores
Ter mais de uma fonte qualificada pode ser decisivo em momentos de allocation.
Supply Chain passa a fazer parte da engenharia
Talvez essa seja a principal lição da crise dos laminados.
Durante muito tempo, a escolha do material foi tratada principalmente como uma decisão de engenharia: “Qual material atende à especificação?”
Hoje precisamos acrescentar outra pergunta: “Qual material atende à especificação e estará disponível quando precisarmos produzir?”
Essa mudança aproxima Engenharia, Compras, Supply Chain, Qualidade, PCP e Fabricante.
O desenvolvimento do produto precisa considerar não apenas desempenho e custo, mas também disponibilidade e risco de fornecimento.
E onde entra a Conexus?
A Conexus Consultoria em Produtos Eletrônicos entende que pode contribuir justamente nesse cenário.
A Conexus não quer ser apenas mais um elo comercial entre cliente e fornecedor.
A proposta é ajudar o cliente a tomar decisões melhores em um cenário de maior incerteza.
Isso significa olhar para o projeto de forma mais ampla: engenharia, sourcing, supply chain, materiais, custos, homologação e planejamento.
- Engenharia: avaliar especificações, tecnologias e possíveis alternativas.
- Sourcing: buscar fornecedores e fontes qualificadas.
- Supply Chain: avaliar disponibilidade, lead times, capacidade e riscos futuros.
- Materiais: analisar alternativas de laminados e componentes quando tecnicamente possível.
- Custos: entender o que realmente está provocando uma alteração de preço.
- Homologação: apoiar o processo de avaliação de novos fabricantes e fornecedores.
- Planejamento: ajudar o cliente a antecipar necessidades e reduzir exposição a shortages.
Não espere a falta acontecer
Um dos maiores riscos neste momento é agir somente quando o problema já chegou à produção.
Quando um componente entra em allocation, quando o laminado deixa de estar disponível ou quando o lead time dobra, as opções diminuem e o poder de negociação também.
Por isso, a melhor estratégia é trabalhar antes da crise chegar à OP.
Isso pode significar:
- revisar a BOM;
- mapear componentes críticos;
- identificar single sources;
- avaliar laminados alternativos;
- homologar fornecedores secundários;
- trabalhar forecast;
- reservar materiais;
- revisar estoques;
- acompanhar lead times.
Conclusão
A crise dos laminados não é apenas uma questão de aumento de preço. Ela representa uma transformação importante na cadeia global de fornecimento de produtos eletrônicos.
A expansão da inteligência artificial e dos data centers está aumentando a demanda por PCBs mais complexas e por materiais de maior desempenho.
Ao mesmo tempo, cobre, folha de cobre, fibra de vidro, resinas e outros insumos estão enfrentando diferentes níveis de pressão.
Os números até julho de 2026 mostram a dimensão desse movimento:
- +63,2% no preço do laminado desde janeiro de 2025;
- +560% no lead time do laminado em relação a junho de 2025;
- +261% no lead time entre Q1 e Q2 de 2026.
E o mercado ainda está crescendo.
A projeção da ICAPE aponta para um mercado global de PCB de aproximadamente US$ 123 bilhões em 2030.
Para as empresas que dependem de produtos eletrônicos, uma conclusão começa a ficar clara: em um mercado de maior volatilidade, supply chain não pode mais ser tratado apenas como uma questão de compras. Ele precisa fazer parte da estratégia do produto desde o início do projeto.
A Conexus Consultoria em Produtos Eletrônicos quer estar ao lado das empresas nesse processo, ajudando a transformar um cenário de incerteza em informação, planejamento e decisões mais seguras.
Porque, em tempos de escassez, não basta encontrar um fornecedor. É preciso entender o risco, antecipar movimentos e construir uma cadeia de fornecimento preparada para o futuro.
Os principais números da crise até julho de 2026
| Indicador | Variação / referência |
|---|---|
| Preço do laminado — Jan/25 a Jul/26 | +63,2% |
| Lead time do laminado — Jun/25 a Jun/26 | +560% |
| Lead time — Q1/26 a Q2/26 | +261% |
| Mercado global de PCB — 2026 | US$ 96 bilhões |
| Mercado global de PCB — 2030 | US$ 123 bilhões |
| CAGR PCB — 2025–2030 | 7,7% |
Fontes e observações
Dados de mercado, preços de laminado, lead times e projeções: ICAPE — Global PCB Report – Industry Insights Q2 2026.
Informações sobre supply chain eletrônico, componentes e recomendações: ICAPE — Electronics Supply Chain Update & Recommendations, julho de 2026.
Informações complementares de mercado utilizadas na versão editorial: fontes públicas de mercado, quando explicitamente indicadas no texto.
Os percentuais apresentados devem ser interpretados de acordo com o indicador e período de referência. O aumento do preço do laminado não equivale automaticamente ao mesmo aumento no preço final de uma PCB.
Sobre a autora
Cilene Paleari Faria é gestora e consultora na Conexus Consultoria em Produtos Eletrônicos, com mais de 28 anos de experiência na indústria eletrônica e atuação em gestão comercial, processos, qualidade e desenvolvimento de negócios.
Na Conexus, atua no diagnóstico das necessidades dos clientes, estruturação de conexões técnicas, alinhamento entre expectativa e viabilidade e condução estratégica dos projetos.
CONEXUS — Conectando empresas, entregando soluções. Consultoria Técnica em Produtos Eletrônicos.